Seleção de 3 excertos
Projeto de leitura
Índice:
Excerto 1:
"A Gi é que continuava por arranjar, merecedora da
minha atenção, sim, até porque nunca ficaria boa, a julgar pelo aspeto.
Alegrava-me saber que esse projeto não teria fim." (P.42)
Este excerto é muito importante porque mostra a forma distorcida de como o Rafa vê a Gisberta. Ele compara-a a uma bicicleta que estava a arranjar, um "projeto" que "nunca teria fim". O que parece à primeira vista um gesto de cuidado (ele querer "arranjar" a Gi) revela algo muito mais perturbador: o Rafa não vê a Gisberta como uma pessoa, mas como um objeto. A frase "nunca ficaria boa" é de uma crueldade involuntária, porque ele diz isto sem maldade aparente, o que é ainda mais assustador. Esta passagem é representativa da ambiguidade moral do livro todo: o narrador sente alguma forma de afeto, mas é um afeto que desumaniza. Ele quer "arranjar" a Gi como quem quer arranjar uma bicicleta enferrujada. A alegria que sente ao saber que o projeto não terá fim revela uma espécie de posse perversa, ele precisa que a Gi continue dependente dele, porque isso dá sentido à sua existência vazia. É um excerto chave para perceber a psicologia do narrador e a forma como a violência pode nascer de sentimentos que, à superfície, até parecem positivos.
Excerto 2:
" A gaja é feia como um homem!" (P.87)
Esta fala do Nélson é um momento de viragem na narrativa.
Até aqui, o grupo tratava a Gisberta como "a gaja", uma mulher.
Quando o Nélson diz esta frase, durante a cena em que o Rafa leva os amigos à
cave onde a Gi vive, a violência verbal transforma-se. A frase é curta, seca,
cruel. O que está em jogo aqui não é a aparência física da Gisberta, é a
revelação de que ela é uma mulher trans. O "feia como um homem" é uma
forma de marcar território, de excluir, de transformar a diferença em motivo de
nojo e, logo a seguir, em violência física. Este excerto é representativo do
papel do grupo no livro: a partir do momento em que a identidade da Gi é
revelada, a dinâmica muda. O que era uma relação ambígua de afeto e exploração
transforma-se num linchamento moral (e depois físico). O Nélson, que até ali
era o "falador", o que contava histórias, torna-se aqui o catalisador
da violência. A frase é simples, mas carrega todo o peso do preconceito e da
ignorância. É um excerto que dói ler, e dói porque mostra como a violência
começa nas palavras.
"Acho que era Janeiro, até porque a data final disto é
22 de Fevereiro às oito e meia da manhã e, apesar de agora parecerem meses, a
verdade é que não passaram sequer sete semanas até as coisas acabarem." (P.15)
Este excerto aparece no início do livro e é assustador pela
frieza com que o narrador trata o tempo. O Rafa fala da data da morte da
Gisberta como quem fala da data de entrega de um trabalho ou do fim de um prazo
qualquer. "As coisas acabarem" é uma expressão tremendamente
eufemística para se referir a um assassinato brutal. O que este excerto faz é
antecipar uma ideia central do romance: o mal não é excecional, é banal. O Rafa
não está a contar a história com drama ou culpa aparente, está a relatar
factos. O tempo está ali, frio e objetivamente contado. Janeiro, 22 de fevereiro,
oito e meia da manhã, sete semanas. Parece um relatório, não uma confissão.
Esta passagem é representativa do estilo do Afonso Reis
Cabral: uma escrita despojada, quase documental, que recusa o melodrama e
aposta na sobriedade. E é precisamente essa sobriedade que torna a leitura tão
perturbadora. O autor não precisa de acrescentar horror, basta-lhe deixar o
narrador falar. A data está ali, precisa. O que aconteceu nessa data, o leitor
já sabe (ou vai saber). O silêncio entre as palavras é o que mais pesa. Este
excerto é um bom exemplo de como o livro nos obriga a ler nas entrelinhas e a
sentir o horror naquilo que não é dito.

Comentários
Enviar um comentário