Tarefa criativa
Projeto de leitura
Índice:
Escolhi recriar a cena em que o Rafa leva o Nélson e o
Samuel à cave do Pão de Açúcar para verem Gisberta. No livro, esta cena é
contada pelo Rafa, com a frieza habitual dele. Eu vou contá-la do ponto de
vista da própria Gisberta, imaginando o que ela terá sentido naquele momento.
A visão de Gi
" Eu já desconfiava que o Rafa havia de trazer alguém um
dia. Ele vinha sempre sozinho à cave. Trazia comida, às vezes um cobertor. Não
falava muito, mas ficava ali sentado no colchão, a ver a bicicleta que andava a
arranjar. Eu gostava daquilo. Fazia-me lembrar o tempo em Paris, quando havia
luz e palco e gente que batia palmas. O Rafa não batia palmas, mas a presença
dele era qualquer coisa.
Quando ouvi os passos na escada, mais do que uma pessoa, o meu coração gelou. O Rafa vinha com dois outros. O meu corpo encolheu sozinho, nem mandei. É instinto. Olhei para eles e tentei sorrir, como faço sempre. O sorriso é a única arma que uma mulher como eu tem quando a cercam.O mais novo, de boné, desviou o olhar. O outro, o mais magro, parecia assustado. Mas o Nélson… o Nélson não desviou. Ficou a olhar para mim como quem olha para um bicho no meio da estrada. E depois riu-se.
"A gaja é feia como um homem."
Olhei para o Rafa, à procura de um sinal. Ele estava calado,
com os braços cruzados. Não disse nada. E foi esse silêncio que doeu mais do
que as palavras do Nélson.
Eu soube ali que a minha sorte naquela cave tinha acabado. O
Rafa ainda voltaria, talvez com mais comida, talvez com o mesmo ar distante.
Mas nunca mais seria como antes. Porque agora eles sabiam. E o que eles sabiam
ia matar-me. Não foi nesse dia que me bateram. Mas foi nesse dia que eu percebi
que não sairia dali viva."
Este momento é crucial porque marca a passagem da
ambiguidade para a violência declarada. No livro, o leitor vê esta cena pelos
olhos do Rafa, que a relata sem grande emoção. Ao recontá-la pela perspetiva da
Gisberta, quis mostrar o medo, a humilhação e a consciência da tragédia que ela
própria já antevia. O silêncio do Rafa, que no livro pode parecer apenas
distraído ou indiferente, aqui é interpretado como uma traição. Afinal, a
Gisberta confiava nele, e ele nada fez para a defender naquele momento.

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