Tarefa criativa

Projeto de leitura

Disciplina - Português 12º Ano

Docente- Isabel Jorge
Discente- Tiago Carpinteiro, Nº27, 12ºA



Índice:

Recriação de um momento crucial da obra "Pão de Açúcar"


 
Recriação de um momento crucial da obra "Pão de Açúcar":

Escolhi recriar a cena em que o Rafa leva o Nélson e o Samuel à cave do Pão de Açúcar para verem Gisberta. No livro, esta cena é contada pelo Rafa, com a frieza habitual dele. Eu vou contá-la do ponto de vista da própria Gisberta, imaginando o que ela terá sentido naquele momento.

A visão de Gi

"    Eu já desconfiava que o Rafa havia de trazer alguém um dia. Ele vinha sempre sozinho à cave. Trazia comida, às vezes um cobertor. Não falava muito, mas ficava ali sentado no colchão, a ver a bicicleta que andava a arranjar. Eu gostava daquilo. Fazia-me lembrar o tempo em Paris, quando havia luz e palco e gente que batia palmas. O Rafa não batia palmas, mas a presença dele era qualquer coisa.

    Quando ouvi os passos na escada, mais do que uma pessoa, o meu coração gelou. O Rafa vinha com dois outros. O meu corpo encolheu sozinho, nem mandei. É instinto. Olhei para eles e tentei sorrir, como faço sempre. O sorriso é a única arma que uma mulher como eu tem quando a cercam.O mais novo, de boné, desviou o olhar. O outro, o mais magro, parecia assustado. Mas o Nélson… o Nélson não desviou. Ficou a olhar para mim como quem olha para um bicho no meio da estrada. E depois riu-se.

"A gaja é feia como um homem."

    Foi o que ele disse. E aquelas palavras entraram em mim como navalhas. Porque ele não estava a enganar-se. Ele viu o que eu tentava esconder desde que cheguei a Portugal. Em Paris, com as luzes e os vestidos, ninguém via. Aqui, na cave, com a pele seca e o cabelo desfeito, não consigo esconder nada. O meu corpo traiu-me.

    Olhei para o Rafa, à procura de um sinal. Ele estava calado, com os braços cruzados. Não disse nada. E foi esse silêncio que doeu mais do que as palavras do Nélson.

    Eu soube ali que a minha sorte naquela cave tinha acabado. O Rafa ainda voltaria, talvez com mais comida, talvez com o mesmo ar distante. Mas nunca mais seria como antes. Porque agora eles sabiam. E o que eles sabiam ia matar-me. Não foi nesse dia que me bateram. Mas foi nesse dia que eu percebi que não sairia dali viva."

    Este momento é crucial porque marca a passagem da ambiguidade para a violência declarada. No livro, o leitor vê esta cena pelos olhos do Rafa, que a relata sem grande emoção. Ao recontá-la pela perspetiva da Gisberta, quis mostrar o medo, a humilhação e a consciência da tragédia que ela própria já antevia. O silêncio do Rafa, que no livro pode parecer apenas distraído ou indiferente, aqui é interpretado como uma traição. Afinal, a Gisberta confiava nele, e ele nada fez para a defender naquele momento.


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